6.9.06

bagaceira # 2




Encosto

Sentou-se confortavelmente em sua cadeira acolchoada. Respirou profundamente por duas vezes, pois gostava da sensação do ar fresco enchendo-lhe completamente os pulmões. Corrigiu a postura, aqueceu os pulsos, estalou os dedos todos – um a um, num som alto e doloroso –, coçou a cabeça esboçando um sutil sorriso, estava ficando empolgado.
Sentia-se assim sempre que percebia que teria uma idéia ou que a inspiração o tocaria para que pudesse criar, escrever! Da gaveta à esquerda retirou uma belíssima folha em branco e, com todo o cuidado para não dobrá-la, repousou-a suavemente sobre a superfície de madeira, de tal forma que gastou alguns segundos para alinhá-la paralela e perfeitamente em relação à borda da mesa. Sorriu orgulhoso, aproximando o olhar para contemplar as intocadas texturas do papel.
De outra gaveta retirou um estojo de madeira antiqüíssimo e, deste, um lápis novinho. Retirou também um apontador de metal e pôs-se a afiar o instrumento, sem pressa alguma, como se aquele ato lhe fosse suficientemente prazeroso para que pudesse continuar a executá-lo eternamente se preciso. Após algumas voltas contra a lâmina de metal, parava e observava o grafite surgir do centro da madeira. Ainda não estava bom, apontou-o mais e mais.
Repousou o lápis ao lado do papel com um descaso milimetricamente estudado. Voltou a estalar os dedos, desta vez de forma mais rápida e discreta, remexeu-se na cadeira e respirou fundo novamente. Ah! Estava definitivamente pronto. O claustro repousava sem silêncio, nenhum ruído, nenhuma conversa, nada que pudesse atrapalhá-lo. Dá janela vinha apenas a luminosidade necessária para que pudesse escrever e, constatando tudo isso, empunhou o bendito lápis e usou-o.
Escreveu menos que uma dezena de palavras e parou abruptamente. Não estava satisfeito, era mais um de seus clichês dando as caras naquelas poucas palavras. Levantou os olhos para o ambiente em busca de uma outra inspiração, olhando além dos móveis para vasculhar a própria consciência, mas nada.
Estava vazio. Por mais que tentasse pensar em algo, encolerizava-se e sentia o rosto enrubescer-se. Não conseguia lidar com sua falta de imaginação e toda vez que lhe faltavam idéias era tomado por uma raiva repentina que de nada o ajudava. Bateu as mãos na mesa e, irritado, esbravejou: “Dragão! Pé-cascudo! Coisa-ruim!”.
Quebrou o lápis e arremessou-o para a rua. A folha, pobrezinha, foi compactada em uma pequena bolinha de papel que foi parar sabe-se lá onde. Trêmulo e quase sem fôlego, deixou o quarto batendo a porta com força, ainda resmungando: “Malvado! Porco-sujo!”.

Bruno Cardoso
trenodia@gmail.com



Noturno

Gritos afiados
Afinam o rito
Amor de guardanapo
Dura essa noite
Eterna
Ternas promessas
Pernas
Para que te quero?

Aluisio Martins
www.fenosefenotipos.zip.net


A MORTE SENDO

quero morrer velho
como um jovem,
trocando as palavras,
as pernas,
tremendo as mãos
a cada aceno,
temendo ou não
a cada cena.

quero morrer jovem,
mesmo estando velho,
vítima de um poema,
um grave poema alado.
sem memória,
mas com história
para cantar.

quero morrer sorrindo,
rindo da cara do tempo,
com um sol lindo, indo,
e eu ali, jogado,
com meus poemas
e tempo pra tudo que é lado.



Múcio Góes
www.e-diversos.blogspot.com



Naufrágil

Soçobra o navio,
Mas a banda ainda toca
Afunda no frio
Sustentando cada nota

Soçobram as horas
Vai fugindo cada segundo
Como se fosse primeiro, agora
Subindo-bolha do fundo

Soçobram os vazios que a água invade
O convés, fustigado pelo granizo
Soçobram as meias verdades
Com a última tábua do piso

Os panos
Os ventos
As velas
As luzes
Soçobram
Só sobram
Sombras.

Czarina das Quinquilharias
www.sabedoriadeimproviso.blogspot.com



A Cor do ego
entre tantos
entre cantos
sob tetos e paredes...
no labirinto
na tocaia
laçado a super- redes...


paralelo sem saída
ao espelho...
paralelo, sem saída

torno meus olhos
adentro as entranhas
e negro, vejo.

Fernando Couto
furdscouto@hotmail.com


Queda

A queda faz o pulsar das horas
transgredir.
Assim como o caminho, as vontades
subvertem-se.
invertem-se os sentidos e os motivos
não divertem.

Ruir,
o resultado indesejado com seu gosto
amargo.
Inintensionalmente vai sendo saboreado.
a digestão é lenta, asiática,
requer paciência.

Mas ao desgosto cabe também o destino
de todos:
morrer,
desde o nascimento, aos poucos.

Leandro Jardim
www.florespragasesementes.blogspot.com



O centro que me tira do eixo

Por que você fica mais à esquerda
Do meu, por ti, já pequeno peito,
Se você vira o centro do meu ser
Nos receados ou ávidos momentos?

Talvez por isso que na glória ou na perda,
No sol a pino ou no meu leito,
Você tire esse ser torto do seu eixo,
Já que você pesa mais nesses momentos
Tais onde se emaranha o denso!

E sendo um fadado centro,
mas não estar, em mim, centralizado,
Tira-me o eixo e me e se contraria...
Rompendo-nos, nos ligeiros giros,
Nessas revoluções em forma de dias...

Augusto Sapienza
www.tomospoeticos.blogspot.com







2 comentários:

Nanna disse...

Maravilhoso o apanhado!

Mandei um e-mail pra você a respeito do seu convite... :)

Vou adorar, viu?

Beijinhos...
:)

Vera Almeida disse...

Recebo todo mês um exemplar e a cada mês me surpreendo com a capacidade desses escritores.
Sou professora do ensino fundamental e meus alunos estudam as poesias desse fanzine!
Continuem nos presenteando com seu talento!